A noite de 23 de junho no Maior São João do Mundo tem dona, roteiro e uma emoção que não se desgasta com o tempo. Entrando no palco às 23h25, Elba Ramalho comandou um espetáculo de quase duas horas, que uniu a exaltação da cultura nordestina de raiz, a renovação do seu público e uma entrega absoluta sob a chuva abençoada que lavou a alma dos campinenses.
O show começou reverenciando as origens. Antes mesmo da Rainha entrar em cena, o público foi impactado por um grupo de bacamarteiros vestidos de cangaceiros, que transformaram o palco com a dança do xaxado. Em seguida, Elba abriu a noite entoando o clássico “Banquete de Signos” (Zé Ramalho, 1982). O ritmo foi mantido com uma declamação poética bem nordestina, emendada com o clássico “Óia Eu Aqui de Novo”, imortalizado pelo mestre Luiz Gonzaga.
O momento mais aguardado da véspera de São João aconteceu em um cenário cinematográfico. Exatamente à meia-noite, sob a chuva que caía no Parque do Povo, os tradicionais fogos de artifício começaram a iluminar o céu da Rainha da Borborema. No palco, Elba Ramalho entoava o hino “Olha Pro Céu”, conduzindo uma catarse coletiva em um dos principais palcos da música nordestina.
Do meio para o fim do espetáculo, o clima esquentou de tal forma que o Parque do Povo se transformou em um gigantesco “quadrilhão”. Grupos de pessoas se deram as mãos e formaram dezenas de pequenas quadrilhas espalhadas pelo local da festa, executando os passos marcantes dos festejos em uma celebração genuína da cultura popular.
Encontro de gerações e ritmos
O repertório da noite foi uma verdadeira viagem pela música nordestina. Além de clássicos como “Isso Aqui Tá Bom Demais” (Dominguinhos, 1985) e “Pedras Que Cantam” (sucesso de Fagner e tema da novela Pedra Sobre Pedra), a cantora mostrou estar conectada com a diversidade do forró. O setlist passeou por Alceu Valença, Zé Ramalho, Nando Cordel — com o hit “Você Endoideceu Meu Coração” (1998) —, e abriu espaço para sucessos da banda Cavalo de Pau, Walkyria Santos e até do fenômeno atual João Gomes.
A música autêntica ainda ganhou um show à parte graças à percussão de Durval Pereira, músico de Queimadas (PB). O zabumbeiro teve um momento de destaque, trazendo o coração e a cadência do forró raiz para os holofotes do palco principal. Atendendo a pedidos dos fãs, Elba também entoou um trecho de “Bodocongó” , música de Jackson do Pandeiro, que ela mesma imortalizou em seu antológico álbum Ave de Prata, de 1979.
O Legado e o futuro no palco
Um dos momentos mais emocionantes da noite aconteceu ao som de “Banho de Cheiro” (1983). Enquanto Elba cantava o hino de Alceu Valença e Geraldo Azevedo, o telão exibia uma retrospectiva fotográfica de toda a sua trajetória.
Esse peso histórico ficou ainda mais evidente quando a cantora notou um cartaz no meio da multidão. Ela chamou ao palco uma menina de apenas 11 anos que sonhava em cantar ao seu lado. Bastante emocionada, a garota dividiu os vocais com a estrela na música “Ai que saudade d’ocê”. Abraçada à pequena fã, Elba profetizou: “Daqui a uns anos, vou estar aqui bem velhinha, vendo você cantar neste palco”.
A cena traduziu com perfeição o que a própria artista havia revelado em entrevista exclusiva nos bastidores horas antes. Sem vaidades, Elba afirmou que enxerga com alegria a perpetuação de sua obra pelas novas vozes femininas do país, ” Elas vão em cima do meu repertório, cantam 15 músicas minhas no show. […] Isso me dá alegria de saber que estou virando um referencial de artistas fortes e emblemáticos. A história começou aqui, e eu fui a primeira a levantar a bandeira quando não havia espaço para o Nordeste” , disse a cantora bastante emocionada.
Após quase duas horas de pura entrega, Elba Ramalho escolheu acalmar os corações para a despedida. Em um momento de profunda espiritualidade, a cantora cantou à capela a música “Deus Está Aqui (Noites Traiçoeiras)”, sucesso do Padre Marcelo Rossi (2006).
Antes de deixar o palco consagrado de Campina Grande sob aplausos ensurdecedores, a Rainha deixou sua última mensagem para o público que a acompanha há quase quatro décadas: “Sorria, sejam feliz”.
Rafael Costa/Rede Primeiro Minuto



