Em uma noite que marcou o início do último fim de semana d’O Maior São João do Mundo, o Parque do Povo foi palco de um verdadeiro reencontro com as raízes do forró eletrônico. Com a imponente marca de 36 anos de história, a Mastruz com Leite subiu ao palco nesta quinta-feira (2) não apenas para tocar seus sucessos atemporais, mas para reafirmar seu título de “A Mãe do Forró Eletrônico”. E o melhor: de acordo com a própria banda, a chama desse forró autêntico nunca se apagou.
A energia contagiante da Mastruz, liderada por um elenco afinado de cantores que honram o legado deixado pelo idealizador Emanuel Gurgel e por vozes marcantes que passaram pela banda, fez do Parque do Povo um imenso arraial de corações pulsantes e nostalgia à flor da pele.
Durante a apresentação, a Mastruz desfilou os grandes sucessos que marcaram as últimas três décadas, mas também fez questão de provar que o presente pulsa forte, incluindo no repertório a música mais recente, “São João de Todos os Tempos”.
A noite também foi palco de justas homenagens. O vocalista Nerivaldo Bezerra fez questão de enaltecer a figura imortal da compositora Rita de Cássia antes de interpretar as canções escritas por ela, relembrando o impacto da poeta na consolidação do gênero.
Em outro momento altamente simbólico, que incendiou o pátio do forró, o vocalista cravou diante da multidão: “Mastruz com Leite é raiz, Mastruz com Leite é Nordeste!”. Imediatamente, a banda emendou os acordes do clássico “Raízes do Nordeste”, elevando o orgulho regional e fazendo o público cantar a plenos pulmões.
Saga de um vaqueiro: O ápice da noite
Entre os clássicos executados, “Saga de um Vaqueiro” se destacou como o grande teste de fogo e o ápice emocional do show. Conhecida como uma das músicas mais longas e complexas do forró, ela exige memória e precisão absoluta. Nos bastidores, Nerivaldo já havia confessado o peso da canção: “A ‘Saga’ é uma música… demorei uns 5 anos pra pegar a letra decorada, entendeu? Pra mim, foi muito trabalhoso na época, porque ela é difícil. Pode ter certeza, é a música das músicas”.
O resultado de tanta dedicação foi presenciado por todos. Logo que os primeiros acordes da música iniciaram, o Parque do Povo foi tomado por uma catarse coletiva. O público cantou a epopéia nordestina do início ao fim, sem errar uma única vírgula. Tomado pela energia do momento, ao final da execução, Nerivaldo ajoelhou-se no palco e fez reverência à multidão, agradecendo o coro apaixonado que validou todo o esforço de manter o legado vivo.
O Tributo a Artur César
Um dos momentos mais emocionantes da noite fugiu do roteiro musical para se tornar uma verdadeira reverência à história do forró. O show abriu espaço para homenagear uma lenda viva que dita o compasso da Mastruz com Leite desde os seus primeiros acordes: o baterista Artur César.
Natural de Mossoró, no Rio Grande do Norte, o músico foi ovacionado pelos colegas de palco e pelo público presente. Em um discurso de profundo respeito, a banda parou para reconhecer o peso de sua trajetória. “E a gente só tem aqui a reverenciar esse grande nome da nossa música, um que tá aqui desde o início do Mastruz com Leite. O último da formação original”, declarou o vocalista Gilly Araújo, puxando uma salva de palmas apaixonada pela multidão no Parque do Povo.
A presença de Artur César na bateria não é apenas um detalhe técnico, mas o elo físico e rítmico entre a formação de 1990 e a nova geração. “Você merece, viu, meu irmão? Para nós é uma honra estar do seu lado”, finalizou o cantor, evidenciando o respeito sagrado que a banda mantém por seus pioneiros.
A manutenção da essência e a força do legado
Manter essa essência tão viva exige disciplina. “Se tiver show amanhã, a gente vai procurar manter a construção das coreografias, a questão do fantástico, de cantar as músicas do jeito que foram gravadas, sem mudar nada. E sempre continuar com aquela pegada dançante”, explicou Gilly Araújo.
Essa responsabilidade não se restringe ao palco; exige horas de estudo do repertório e dedicação integral à discografia da banda. Tudo em nome de um propósito maior: a valorização do festejo mais importante da região.
“São João pra mim, na verdade, é um dos maiores e melhores momentos onde a nossa cultura, a tradição do nosso Nordeste, é valorizada, é exaltada. Temos música, temos comidas típicas. Isso é o mais importante. E fica aí o nosso recado: que não deixem morrer a nossa tradição”, defendeu a banda nos bastidores. Com essa mensagem de reverência à própria história e atuações apoteóticas, a Mastruz com Leite provou que a essência do forró eletrônico nordestino não apenas sobrevive, mas domina o Parque do Povo.
Rafael Costa/Rede Primeiro Minuto


