Se a noite de quinta-feira (11) no Parque do Povo foi marcada por um forte choque de ritmos e propostas estéticas, coube a Jonas Esticado a missão de pacificar a arena e devolver o Quartel General do Forró à sua essência mais pura. O cantor cearense entregou uma apresentação com a energia lá em cima, sustentada por um repertório cirúrgico e atualizado que foi cantado pelo público que se recusou a arredar o pé antes do amanhecer.
Exibindo a maturidade de quem completou mais de uma década de estrada, Jonas desfilou uma sequência avassaladora de hits. O termômetro do show foi ditado por hinos do forró moderno como “Moça do Espelho”, “Saudade Boa”, “Com Amor Não Se Brinca” e, claro, o estrondo nacional “Investe em Mim”. A sintonia com o público foi destaque, em alguns momentos do show, provando que o romantismo pop de Jonas continua sendo um dos combustíveis mais potentes do festejo junino e da nova geração do forró.
A ansiedade diante da imensidão de uma festa de 43 anos
Engana-se quem pensa que a segurança demonstrada no palco é fruto da indiferença. Minutos antes de subir os degraus do Palco Principal, em um papo franco nos bastidores, Jonas confessou que o gigantismo de Campina Grande ainda mexe com o seu psicológico e que a ansiedade é o que o mantém vivo na arte.
“A impressão que eu tenho é que, a cada ano que passa, o evento cresce em público e em estrutura. O palco parece maior tanto em altura quanto em largura. Quando você vai entrar, o psicológico pesa. Mas eu costumo dizer que, quando você perde esse frio na barriga, essa sensação de ansiedade, a coisa já não vale mais a pena. Eu sinto esse fervor em todos os shows, ainda mais em um evento desse tamanho”, desabafou o artista.
“O canário voou do Cariri”: Do passado de camelô ao cenário de estrela
Para além dos hits radiofônicos, o grande trunfo de Jonas Esticado neste São João é a riqueza conceitual. Intitulado “O Canário Voou do Cariri”, o projeto visual e estético do show faz uma imersão profunda nas paisagens, tons terrosos, cactos e referências em couro do sertão. No palco, o conceito funcionou como uma blindagem de identidade contra as influências comerciais e plastificadas de outros gêneros que passaram pela noite.
Mais do que uma escolha de marketing, a temática é um acerto de contas com a própria biografia do cantor, que relembrou com orgulho a vida humilde que levava no interior do Ceará antes de se tornar uma estrela nacional.
“Nossa equipe procurou trazer a minha região na imagem e na decoração. Eu nasci e vivi em Juazeiro do Norte e no Crato até os meus 25 anos. Vivi muitas coisas ali: já trabalhei de camelô, trabalhei com ligação, já vendi coisas… A gente quis trazer o Cariri para o show para valorizar a nossa agricultura e o sertão. É o nosso primeiro São João com algo totalmente voltado para as minhas origens”, explicou Jonas.
Ao fechar a apresentação da noite desta quinta-feira, Jonas Esticado carimbou seu passaporte para a maratona intensa que o aguarda nos próximos dias, incluindo pontes aéreas continentais. Ele deixou o Parque do Povo com a certeza de que o “Canário” voou longe, ganhou o Brasil, mas nunca esqueceu de como cantar a verdade do seu ninho.
Texto: Rafael Costa/Rede Primeiro Minuto


