Para um artista forjado na mais pura “escola gonzaguiana”, subir ao Palco Principal d’O Maior São João do Mundo na data oficial que celebra o santo padroeiro não é apenas um show, é uma consagração. Em sua terceira apresentação consecutiva na cobiçada noite do Dia de São João, o sanfoneiro, cantor e piloto Waldonys faz um show com a bagagem de quem vive e respira a história da música nordestina.
Com o sorriso largo e o fôlego de quem enfrenta uma intensa maratona de shows, o artista compartilhou histórias de bastidores, relembrou suas raízes com o Rei do Baião e se emocionou ao falar do legado que já começa a ser perpetuado pela nova geração de sua própria família.
O encontro com Gonzagão e a emoção de pai
A relação de Waldonys com o Parque do Povo é histórica. Ele fez questão de relembrar que pisou no palco de Campina Grande pela primeira vez ainda criança, trazido pelas mãos do próprio Luiz Gonzaga, que o apelidou carinhosamente de “Garoto Atrevido”.
O peso dessa herança voltou a bater forte no peito de Waldonys na atual edição do evento, mas de uma forma diferente. Durante o show da cantora Marisa Monte no Parque do Povo, a estrela da MPB relembrou a vez em que conheceu um jovem Waldonys tocando sanfona na cozinha da casa de Gonzagão em 1992, por indicação de Gilberto Gil.
A grande surpresa revelada por Marisa no palco, no entanto, foi apresentar ao público o sanfoneiro que a acompanhava naquela noite: Luciano Moreno, o filho mais novo de Waldonys.
”Eu fico escandalizado. Meu Deus, quanta bênção recebida! […] Falei pra ele depois do show: ‘Você tá pegando estrada asfaltada, não pegou a buraqueira que eu peguei. Valorize cada degrau. Você subiu pro palco d’O Maior São João do Mundo no elevador com a Marisa Monte, eu fui de escadinha com o Gonzagão’.”
Apesar da emoção pela realização do seu filho, para Waldonys chegar à noite oficial de São João é um troféu que o piloto exibe com profunda gratidão. Para ele, ocupar o espaço principal da festa na data que é o ápice do calendário nordestino é algo difícil de traduzir em palavras, ”Eu fico muito honrado. Imagine você, um artista que vem dessa escola gonzaguiana, ser discípulo do Rei do Baião e, num Dia de São João, estar no palco de Campina Grande. É uma representatividade muito grande. Transborda gratidão”, revelou o cantor bastante emocionado.
A balança do forró: inovação com identidade
Questionado sobre a febre dos novos ritmos e como um defensor da sanfona lida com a modernização da festa, Waldonys demonstrou maturidade. Para ele, o segredo é o equilíbrio. Em seu repertório, clássicos da MPB e do forró dividem espaço até mesmo com os sucessos do piseiro de João Gomes mas com uma condição inegociável: a assinatura do seu acordeon.
”Aí é onde mora o coringa do baralho: saber dosar. Eu levo pro repertório desde ‘Sonho de Ícaro’ até João Gomes, mas sem esquecer a essência. A música do João Gomes vem na minha pegada, eu arrumo ela do meu jeito. Não levo como piseiro; nada contra, mas não é a minha onda.”
Para o “Garoto Atrevido” que virou mestre, o forró pode, e deve, dialogar com o novo, desde que a verdade do artista permaneça intocável, “O artista que se propõe a defender o forró tem essa responsabilidade grande de inovar, sem perder a tradição. Tudo o que vai pro palco tem que ter alguma coisa a ver comigo. Esse é o grande lance da arte”, cravou, antes de assumir sua sanfona e embalar mais uma noite memorável no Quartel General do Forró.
Rafael Costa/Rede Primeiro Minuto


