O Palco Principal do Parque do Povo costuma ser o termômetro do que é sucesso no Nordeste, mas na noite em que Gitana Pimentel assumiu os microfones, ele se transformou em um verdadeiro caldeirão da cultura brasileira. Celebrando exatamente 10 anos desde a sua primeira apresentação no palco mais cobiçado d’O Maior São João do Mundo, a artista campinense entregou um show catártico, marcado pela diversidade sonora e por uma sintonia absoluta com o público.
Longe de se prender a um único rótulo, Gitana construiu uma apresentação costurada pelas várias vertentes que embalam as festas populares do país. Do tradicional arrasta-pé ao forró das antigas, passando pela energia contagiante do Carnaval e pela malemolência da lambada, ela provou por que é considerada uma das artistas mais versáteis da Paraíba.
“Eu não tenho condições de escolher um gênero só da música brasileira. Eu gosto de dizer que sou uma intérprete de música brasileira, sou uma cantora de festa! Então, eu sempre trago um pouquinho do que eu faço no Carnaval, dou uma misturada e a gente vai costurando para que o repertório fique coeso. Tudo o que pertence à nossa música e à nossa cultura é bem-vindo”, explicou a cantora logo após deixar o palco, ainda em estado de êxtase.
O Método “Gitana”: Pensando com a cabeça do público
O segredo para fazer uma mistura tão ousada funcionar em uma festa com raízes tão bem definidas está na empatia. Durante a montagem do seu setlist, Gitana revela que abandona o preciosismo técnico para adotar a perspectiva de quem está do outro lado do palco.
“Eu monto o repertório pensando como público: o que eu gostaria de ouvir se eu estivesse na plateia? Muitos músicos pensam se a música tem um arranjo incrível, mas eu penso: ‘Se eu estivesse lá embaixo eu ia dançar ouvindo isso?’. Se a resposta for sim, então funciona”, resumiu a artista.
E a estratégia foi um sucesso absoluto. A resposta da plateia derrubou um mito recente que vem circulando nos bastidores da música: o de que a nova geração perdeu o interesse pelas raízes. “Fiquei muito impressionada hoje com o pessoal, porque tinha muita gente jovem e eles estavam vibrando, dançando muito e cantando o arrasta-pé. Dá um quentinho no coração da gente, porque vemos que sim, o público gosta de forró e é receptivo à nossa tradição”, celebrou.
A responsabilidade de representar a “prata da casa” n’O Maior São João do Mundo é imensa, mas Gitana vive hoje o momento mais maduro e feliz de sua carreira. E o mais impressionante: tudo construído com as próprias mãos.
Sem o apoio de grandes escritórios ou investidores, a cantora define sua jornada com muito bom humor e resiliência, “Tudo aconteceu de forma muito orgânica, porque eu trabalho sozinha. Eu não faço parte de uma empresa, não tenho empresário… Eu sou ‘tudo’. Eu sou uma ‘eu-presa’, uma ‘eu-quipe’! O que eu conquistei de público foi na luta e com as pessoas abraçando a minha carreira.”
Esse abraço do público agora ultrapassa as fronteiras da música e ganha as telas do Brasil e do mundo. Com uma agenda de shows lotada, Gitana também colhe os frutos de sua atuação na aclamada série Cangaço Novo, consolidando seu talento na dramaturgia.
No fim das contas, a noite de celebração no Parque do Povo deixou uma mensagem clara: seja atuando, cantando forró, puxando uma lambada ou um trio elétrico, Gitana Pimentel é uma artista completa, dona de todos os ritmos e, indiscutivelmente, profeta em sua própria terra.
Rafael Costa/Rede Primeiro Minuto


