Subir ao palco d’O Maior São João do Mundo na noite do dia 23 de junho já é um divisor de águas na carreira de qualquer artista. Mas, para o sanfoneiro, cantor e compositor Guilherme Dantas, o momento carrega um peso ainda maior: o da superação, da fé e da quebra de barreiras.
O músico cearense abriu o coração sobre a emoção de comandar milhares de pessoas, a responsabilidade na montagem criteriosa de seu repertório e a sintonia inexplicável que o conecta aos fãs muito além do que os olhos podem ver.
Representatividade e fé no palco principal
Ao ser questionado sobre a importância de se apresentar na data mais simbólica dos festejos juninos, Guilherme destacou que sua presença no palco é um farol de esperança e um símbolo de vitória para todas as pessoas com deficiência que lutam por espaço e reconhecimento, “É uma honra, um orgulho sem tamanho estar no dia 23, na véspera de São João. Eu fico muito feliz por também representar as pessoas com deficiência — e aqui eu englobo todo mundo: pessoas com limitação visual, auditiva, transtorno do espectro autista. Estar aqui é uma vitória e a prova de que para Deus nada é impossível” disse o cantor.
O desafio do repertório: tradição, sucessos e respeito
Sendo um dos compositores mais requisitados da atualidade, com obras imortalizadas nas vozes de gigantes como Wesley Safadão e Tarcísio do Acordeon, a montagem do setlist de Guilherme exige um equilíbrio cuidadoso. O sanfoneiro explicou que seu objetivo é construir um show que transmita alegria, sem abrir mão da essência nordestina e do respeito pelo público.
A estrutura do seu show é dividida em três pilares essenciais; por ser um autêntico sanfoneiro, ele faz questão de valorizar a música tradicional, “Enquanto eu for sanfoneiro, eu tenho que valorizar a tradição raiz”, cravou o artista.
Para incluir sucessos do momento, Guilherme aplica um critério rigoroso. Ele prioriza canções modernas, mas recusa qualquer repertório que utilize palavras de baixo calão ou que desrespeite a figura feminina, “Não deixo de colocar músicas atuais que sejam boas, mas que façam bem a quem tá escutando, que não falem palavra feia e não objetifiquem a mulher”, explicou.
A Arte de compor vs. encarar a multidão em um show
Quando questionado sobre o que exige mais esforço, compor um novo hit ou encarar o mar de gente no Parque do Povo, Guilherme surpreendeu a todos. Sendo deficiente visual, ele não utiliza o contato visual tradicional para medir a temperatura da arena, mas sente o público de uma forma ainda mais profunda e arrebatadora. Para ele, estar diante da multidão é a parte mais fácil e mágica de seu ofício, “Encarar o público com certeza é mais fácil, porque é uma troca de energia. Vocês têm o poder da visão, podem se conectar usando olhares, e um olhar fala mais que mil palavras. Porém, a energia é um negócio tão grandioso que, mesmo sem poder olhar nos olhos das pessoas, eu procuro cativar e receber isso de volta. Isso não tem dinheiro que pague”, explicou o cantor.
Por outro lado, o verdadeiro desafio diário está na criação solitária e criativa, “Difícil é compor; você tem que usar muita cabeça, ter histórias para contar. É uma arte”, concluiu.
Com a sanfona no peito e o sorriso no rosto, Guilherme Dantas provou no Parque do Povo que a música nordestina é, acima de tudo, um sentimento que dispensa a visão e se enxerga com a alma.
Rafael Costa/Rede Primeiro Minuto



