Conhecido pela paixão pelas alturas — recentemente materializada em saltos com um paraquedas estampado com a bandeira do Brasil —, Waldonys mostrou que por trás dos sorrisos largos espalhados na plateia, das manobras acrobáticas nos céus e da energia contagiante que dita o ritmo dos festejos juninos neste mês de junho, bate um coração moldado pela sensibilidade e pelas marcas da vida real.
Em uma coletiva de imprensa profundamente marcante na Vila Sítio São João, o cantor e sanfoneiro Waldonys silenciou a euforia dos bastidores ao abrir uma ferida íntima: o drama familiar que enfrentou ao descobrir o câncer severo de seu pai, Eurides Menezes, e a forma avassaladora como a música operou como um milagre em sua saúde mental.
O desabafo veio à tona quando o artista foi questionado sobre a escolha do repertório de seu projeto audiovisual O Cantador de Histórias, no qual faz questão de dividir o palco com o pai. Para Waldonys, a presença do patriarca nos shows não é apenas uma homenagem, mas uma urgência de quem entendeu a finitude da vida após encarar o fantasma da doença.
Waldonys relembrou com precisão cirúrgica o dia em que o chão sob seus pés sumiu. Ele estava isolado em um quarto de hotel, em uma cidade no interior do Ceará, no topo de uma serra, preparando-se para mais um compromisso da agenda, quando recebeu uma mensagem no celular. Era um médico amigo, que havia analisado os exames de seu Eurides.
O diagnóstico era devastador: um melanoma, um tipo de câncer de pele, extremamente agressivo e violento, “Antes de subir ao palco eu estava no quarto chorando horrores. Esse médico amigo meu, mandou o exame do meu pai e disse a gravidade do negócio. Eu chorei, chorei muito”, relembrou o sanfoneiro, quebrando a imagem de homem forte associada ao piloto destemido.
A dor do momento entrou em rota de colisão com a sua própria formação. Criado sob os pilares de uma cultura sertaneja tradicional e rígida, onde a demonstração de fraqueza masculina é reprimida, o artista se viu em um impasse psicológico minutos antes de encarar o público. “Entrei no carro para ir ao palco e fiquei pensando: ‘Poxa, mas chorar?’. Eu venho de uma criação onde chorar é muito difícil”, desabafou.
A música salva
Foi nesse exato instante de vulnerabilidade, no trajeto entre o isolamento da dor e os holofotes do palco, que a arte cumpriu o seu papel mais nobre: o de curar. O estalo para reagir veio através da poesia de Gonzaguinha, na canção “Guerreiro Menino” (eternizada na voz de Fagner). Os versos que decretam que “um homem também chora, menina morena, também deseja colo, palavras amenas” funcionaram como um abraço institucional na alma do cantor.
“Aí vem a música do Gonzaguinha… A música salva, né? A música me deu uma sacudida naquele momento”, explicou Waldonys. Ele revelou ainda que precisou buscar forças também no rock de Raul Seixas para conseguir subir os degraus e se apresentar: “Outra que me ajudou foi ‘Tente Outra Vez’: veja, não diga que a canção está perdida, tenha fé na vida. A música salva”.
A superação daquele momento transformou a dinâmica da família no palco. Hoje, ver seu Eurides Menezes, a quem o filho carinhosamente chama de “um menino da velha infância”, empunhando o acordeon ao lado do filho e do neto, Luciano Moreno, é a celebração viva de uma vitória.
A urgência de registrar esses momentos em vida tornou-se a filosofia que rege a estrada do aviador. Citando o pensador Clóvis de Barros Filho, Waldonys fechou o relato deixando uma lição profunda para todos os que acompanhavam a entrevista:
“Feliz o artista que pode juntar no palco o seu pai e o seu filho. Eu faço questão sempre de colocar eles, às vezes por mais que o show esteja corrido, porque eu sei o valor disso e sei que não terei isso para a vida toda. Enquanto eu puder aproveitar… A vida é uma sequência de encontros inéditos com o mundo e, portanto, não se prende em fórmula de nenhuma espécie. A música traduz isso: eu trazendo meu pai e meu filho sempre nesse inédito da vida maravilhosa.”
Ao final, o relato de Waldonys na Vila Sítio São João deixou claro que a sanfona que faz o Nordeste dançar é a mesma que, nos bastidores da existência, tem o poder de costurar dores, acolher lágrimas e manter de pé os guerreiros meninos da vida real.
Rafael Costa/Rede Primeiro Minuto



