Se nos céus ele domina a adrenalina das acrobacias e dos saltos de paraquedas, é com os pés fincados no chão e a sanfona colada ao peito que Waldonys encontra a sua maior liberdade. Na tarde deste domingo (14), Campina Grande presenciou uma das apresentações mais intimistas e emocionantes da temporada na Vila Sítio São João. Em um show que funcionou como uma verdadeira máquina do tempo da música nordestina, o artista entregou um setlist impecável, provando que tradição e renovação podem, sim, dividir o mesmo fole.
A apresentação passeou por todas as facetas do artista. O espírito aviador tomou conta da arena quando os acordes de “Sonho de Ícaro” ecoaram pelo Sítio, um aceno direto à sua inseparável paixão pelas alturas. Nos bastidores, depois do show, Waldonys havia sido poético ao explicar essa conexão divina entre o voo e a música:
“Olha pro céu, meu amor… Não precisa dizer mais nada. Eu faço da atividade aeronáutica uma arte no céu, mas a sanfona me leva também ao céu de certa forma. Das artes, a música é a que toca as pessoas nos lugares onde não existem defesas. Eu me sinto extremamente abençoado por viver feito um passarinho, voando e cantando.”
E foi cantando que ele reverenciou os gigantes que o apadrinharam no início da carreira. As homenagens a Luiz Gonzaga e Dominguinhos deram o tom de reverência da tarde, que logo se expandiu para hinos consagrados como “Anjo Querubim”, de Petrúcio Amorim, e a explosão de “Anunciação”, de Alceu Valença.
Waldonys também mostrou que a sua sanfona dialoga perfeitamente com os corações da nova geração, o veterano surpreendeu o público ao incluir no repertório o sucesso “Se For Amor”, de João Gomes, costurando com maestria o forró de raiz com o piseiro romântico atual.
Homenagem a Cecéu e o intimismo da sanfona
O termômetro da festa atingiu o seu nível máximo durante um medley arrebatador que colocou todo mundo para dançar. Waldonys emendou “Toque de Fole” com “Forró do Xenhenhém”, uma justa e brilhante homenagem à genialidade da compositora Cecéu em canções que são imortalizadas na voz de Elba Ramalho.
Mas o momento mais inesquecível da apresentação foi reservado para um instante de pura simplicidade. Reduzindo o ritmo da banda, Waldonys abraçou a sanfona e conduziu uma versão crua e intimista de “Gostoso Demais”. O silêncio dos instrumentos abriu espaço para que a Vila Sítio São João se transformasse em um imenso coral a céu aberto.
A catarse presenciada pelo público neste domingo é fruto de uma vida inteira dedicada ao instrumento. Na última sexta-feira (12), enquanto Waldonys cumpria agenda, seu filho, Luciano Moreno, assumiu a sanfona no aclamado show de Marisa Monte no Parque do Povo. Questionado sobre o peso de ser essa referência atemporal e passar o bastão adiante, o mestre não escondeu o orgulho:
“A primeira vez que gravei com a Marisa foi em 1992, por indicação de Gilberto Gil, que me viu tocando com Luiz Gonzaga. Trinta e poucos anos depois, vejo meu filho subir ao palco com ela. Isso me honra muito, mas também traz a responsabilidade do legado. O que é que você está passando para esses jovens? O que está deixando para a história?”
Com o coração no compasso do forró e a alma sempre nas alturas, Waldonys deixou o palco da Vila Sítio São João respondendo a essa própria pergunta: o seu legado é a certeza de que as histórias mais bonitas do Nordeste ainda são aquelas contadas nos repuxos de um fole.
Rafael Costa/Rede Primeiro Minuto


